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AFIFE DIGIT@L jornal on-line de Afife

NOTICIAS LOCAIS E REGIONAIS ACTUALIZADAS SEMANALMENTE AOS SÁBADOS ÀS 21h30 ........ e-mail: afifenoticias@sapo.pt

 

PEDRO HOMEM DE MELLO, VEIO A ENTERRAR HÁ 32 ANOS NO CEMITÉRIO DE AFIFE, NUMA TERÇA FEIRA DE CARNAVAL, ESTÁVAMOS ENTÃO A 6 DE MARÇO DE 1984.

pedro-homem-de-mello.jpg

O Poeta Pedro Homem de Mello, foi sepultado no cemitério de Afife em campa rasa, como era sua pretensão, faz este domingo dia 6 de Março, precisamente 32 anos. O poeta faleceu na cidade do Porto, mas por vontade expressa viria a sepultar numa tarde de terça feira de carnaval no cemitério de Afife, onde o esperavam as gentes ligadas ao folclore com os seus trajes, na altura com o grupo de Afife a andar na alta roda do folclore. Presente esteve a fadista Amália Rodrigues entre outras individualidades. Esta data assim como a do seu nascimento, o 6 de Setembro tem passado um pouco esquecida, até porque uma vereadora da câmara de Viana havia dito em Afife, que se faria sempre uma ação na freguesia para recordar o poeta por estas alturas, acontece que a vereadora já não faz parte do executivo e o poeta não tem sido recordado por estas alturas. Afife prestou-lhe homenagem, dando o seu nome  à principal artéria da freguesia, pelo menos poderiam organizar uma pequena caminhada, como a caminhada do poeta, que poderia ser iniciada no cemitério, onde estão patentes painéis em azulejo, com os poemas do poeta, seguindo-se até ao largo da Lapa, Cabanas e terminando no ponto de partida e assim poderia ser dado a recordar os poemas que se encontram na freguesia  em painéis da autoria de Pedro Homem de Mello,ou seja, neste momento ainda podem ser vistos, porque os que se encontram na entrada da antiga mata de Cabanas, estão em vias de desaparecer.

 

Povo

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

 

 

Nasceu no seio de uma família fidalga, filho de António Homem de Melo de Macedo, irmão do 1.º Conde de Águeda, e de sua mulher Maria do Pilar da Cunha Pimentel Homem de Vasconcelos, tendo, desde cedo, sido imbuído de ideais monárquicos, católicos e conservadores. Foi sempre um sincero amigo do povo e a sua poesia é disso reflexo. O seu pai, pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.

Estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, acabando por se licenciar na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 1926. Exerceu a advocacia, foi subdelegado do Procurador-Geral da República e, posteriormente, professor de português em escolas técnicas do Porto (Mouzinho da Silveira e Infante D. Henrique), tendo sido director da Mouzinho da Silveira. Membro dos Júris dos prémios do secretariado da propaganda nacional. Foi um entusiástico estudioso e divulgador do folclore português, criador e patrocinador de diversos ranchos folclóricos minhotos, tendo sido, durante os anos 60 e 70, autor e apresentador de um popular programa na RTP sobre essa temática.

Foi um dos colaboradores do movimento da revista Presença, tendo também colaborado na revista Altura (1945)[2] e no semanário Mundo Literário [3] (1946-1948). Apesar de gabada por numerosos críticos, a sua vastíssima obra poética, eivada de um lirismo puro e pagão (claramente influenciada por António Botto e Federico García Lorca), está injustamente votada ao esquecimento. Entre os seus poemas mais famosos destacam-se Povo que Lavas no Rio e Havemos de Ir a Viana, imortalizados por Amália Rodrigues, e O Rapaz da Camisola Verde.

Afife (Viana do Castelo) foi a terra da sua adopção. Ali viveu durante anos num local paradisíaco, no Convento de Cabanas, junto ao rio com o mesmo nome, onde escreveu parte da sua obra, "cantando" os costumes e as tradições de Afife e da Serra de Arga.

A Câmara Municipal de Lisboa homenageou o poeta dando o seu nome a uma rua em Chelas.[4]

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